Trechos

“- Sigam-me os que forem brasileiros! - Foi o brado que arrebatou para longe os estrondos dos canhões.
Ao baixar a espingarda e virar-me para ver quem havia gritado, eis que um enorme cavalo estava passando adiante de nós com um senhor de cabelos grisalhos, porém robusto, empunhando sua espada a um semblante que inspirava confiança. E naquele instante ele lançou mais um grito, como se estivesse tentando intimidar os inimigos, um grito qual um leão que ruge para enfraquecer e intimidar a presa. Revigorou nossas forças.” – O Duque, de Marcos Brito.
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Manhã serena, aurora plena. O Palácio de São Cristóvão nunca mais foi o mesmo desde que a família real resolveu provar das aventuras de uma terra distante que, por sua vez se encontra localizada na Província da Paraíba. A Vila do Pilar, ultimamente tem desviado olhos e colocado corações em mares revoltos e, portanto, difíceis de se navegar. O silêncio ainda se fazia notável de forma gritante nas intermediações estruturais dos aposentos reais, quando inúmeros tropéis anunciaram que alguém estava a se movimentar com tamanha convicção e afinco. Era Mariana Carlota (...)” – O título ofertado, de Joan Saulo do Monte
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“- En garde! – o grito veio sério, tal qual a resposta do menino; colocando-se em posição de guarda, o pequeno Imperador flexionou os joelhos, ergueu a mão esquerda para trás e projetou o florete diante do corpo. – Aproximem-se… lutem!
Com o sinal, os dois garotos iniciaram o duelo sob a observação cuidadosa do Tenente-coronel Luís Alves de Lima e Silva, o Caxias, que prestava especial atenção ao menor dos dois (...)” – O bom soldado, de Marcelo de Abreu
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O cheiro adocicado de pequeninos grãos de açúcar que envolvia as fatias de pão caseiro fofo e branco, embebido em leite fresco e mergulhado em clara e gema de ovos recém-colhidos do galinheiro que acomodavam coloridas e sempre alegres espécimes nativas e importadas, ‘fatias de paridas’, era como chamavam, a casca do pão restante e o açúcar misturado a canela em pó era o que mais adorava no retorna da mesa grande, saboreava com furor inocente.” – Ideais e sonhos jamais são derrotados, eles vivem póstumos, de Péricles Luiz Pimentel Calafange
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Conheci o Lima nu. Foi quando fomos nos apresentar ao Exército. Éramos uns cem indivíduos nus, de costas para a parede, em que três sargentos nos arguiam e por fim mandavam que soprássemos sobre o dorso da própria mão direita com bastante força, depois de fazerem as inspeções corporais. Após tais exames, mandaram que os que tivessem sido riscados ao peito, permanecessem no local e os demais, que colocassem suas respectivas roupas e se dirigissem ao pátio.” – O cabo Lima, de Laerte Sílvio Tavares
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Ao voltar ao Maranhão após as recentes revoltas, percebi que a balança havia sido levemente inclinada, não sabia se para o nosso lado ou para o dos Liberais, porém eu, assim como todos, havia percebido que a declaração prematura da maioridade de D. Pedro de Alcântara, agora D. Pedro II, o imperador do Brasil, afetava a antiga situação política do Brasil. Sendo que, apesar do clima de incerteza, os Liberais iniciam revoltas, todo esse movimento, porque D. Pedro II anulou as eleições fajutas dos Liberais.” – Marcha para o Império, de Alana Evelyn de Melo Alcântara
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Tudo muda, não importa onde, como ou quando, tudo vai continuar mudando, algumas vezes para melhor, a maioria delas para pior, e tudo o que você pode fazer é ficar olhando as coisas saírem do seu controle sem poder mover um dedo para evitar que tudo o que você lutou tanto para construir desmorone bem na sua frente. Era assim que Dom Pedro I enxergava sua vida naquele momento.” – De xícara a Duque, de Nicoly Almeida
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“Ele insistia em dizer que não era necessário que ficasse junto dele, que tinha deveres a cumprir, disse-lhe que um desses deveres era estar ao seu lado quando partisse assim como ele esteve ao meu lado durante todos aqueles anos.
Para distrair-lhe contei sobre algumas de nossas aventuras, algumas de suas vitórias na linha de frente, as guerras ganhas, as insígnias, os títulos, toda a honra conquistada. Admirava-o profundamente não só por sua bravura, mas por sua dedicação à vida (...)” – O Duque e a imensidão de paz, de Anna Julia Dannala Franco de Souza
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Tarde da noite na pensão. Pedro esboça no quarto planos para uma segunda narrativa, ainda mais ampla e solene que a primeira. Na véspera, os jornais enalteceram a obra: fiel aos detalhes, genuína em ambição. "Um gênio" – alguns artigos sugeriam. Pedro, é claro, apreciava os elogios na imprensa. Mas estava também convencido de que as filas que haviam se formado na estreia (...), poderiam ver um dia os contornos de uma batalha ainda mais dramática(...). Estava então decidido: longa-metragem!” – 24 de maio em Florença, de Marcelo de Araujo
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Antes de começar, acho definitivo contar o que vi desde o início, ao invés de desatar roubando as palavras que me foram expostas à mente cansada de quem acabou de presenciar ocorridos que, mais tarde, soube que se tornaram históricos. Luís Alves de Lima e Silva estava ensandecido e da vida era um nobre empregado, marchando sem dó ou expressão de encontro ao desconhecido. Há quanto tempo o vinha fazendo? Já nem sabia. Desde os primeiros passos, sentia que fora impulsionado a esse balé sem graça de homens de cara fechada e bigode tipo serra.” – O pecado do soldado, de Letícia Ferreira
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Três casais amigos e respectivos filhos se encontravam em férias (...) em um isolado sítio, no interior de Goiás, cujas características, escolhidas em comum acordo, os afastariam da modernidade urbana. Lá não havia TV, jogos eletrônicos, internet, tampouco sinal de celular: algo como um retiro. Os adultos intentavam proporcionar às crianças uma experiência diferenciada, mostrando-lhes o céu noturno estrelado, que as luzes da cidade grande impedem; árvores frutíferas; galinheiros, currais, chiqueiros, fogão de lenha e a deliciosa comida que se prepara neles... Enfim, alguns dias à moda da roça.” – O general e a assombração, de Evandro Valentim de Melo
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Despertar ao som do canto dos pássaros, aquecido sobre um grosso e confortável lençol não combinava com a alma daquele inquieto e valente homem. Embora alguns dissessem que a Fazenda Santa Mônica era um anexo do paraíso, onde o crepúsculo sempre funcionava como convite à contemplação de todas as maravilhas que a natureza proporciona, nada daquilo parecia ter sentido.” – O mestre das armas, de Cleison Fernandes de Souza
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Quando li os jornais naquela manhã pensei que o mundo estivesse rindo de mim. Ou talvez eu tivesse completamente louco. Li várias vezes a manchete do jornal e ainda me recusei a acreditar. Estava sem os óculos tão parceiro desde minha aposentadoria na vida jornalística, então estiquei a mão sobre a mesa e o peguei, usando-o bem na ponta do nariz para ler aquilo que me parecia no mínimo estranho: DUQUE DE CAXIAS SEQUESTRA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA” – O sequestro do Presidente, de Flavia de Araújo Padula
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- Vossa Majestade…
- Como te sentes, meu bom amigo?
- Oh, Vossa Majestade, creio que já não me resta muito tempo…
Nisto, o Duque teve um acesso de tosse. Dom Pedro Segundo, sem saber o que fazer naquela situação, apenas olhou severamente para a enfermeira que lá se encontrava - como que a criticando por não prestar o devido socorro ao velho General. Ela, dando-se conta, aproximou-se do convalescente; o qual, no entanto, afastou-a bruscamente:
- Vá embora! Não preciso de caridades! Foi só uma tosse!” – O velho soldado, de Edweine Loureiro
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Durante a manhã não se ouvia outra coisa nas ruas, nos mercados, na igreja...
- Roubaram a flecha do amor! - dizia uma senhora, quase desesperada.
- Como assim? A flecha que fica na estátua do desprezo? - dizia um jovem rapaz, espantado com a notícia.
A estátua do desprezo já existia antes da cidade Caxias do Sul ser fundada em seus arredores. Sabe-se que uma lenda antiga e perniciosa rondava a história daquela pobre estátua, esculpida em pedra sabão, com alguns detalhes em pedras preciosas (...)” – Sonho majestoso de verão, de Jonatas dos Reis Pereira
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Pesquisei em todos os livros de História do Brasil que encontrei pela frente e não encontrei nem ao menos uma referência que fosse em relação a este episódio que vou narrar a você, meu amigo.
Creio deveras que o fato deva ter passado despercebido pelos historiadores (...). Ninguém é perfeito, não é mesmo? Pelo deslize dos historiadores em não saberem o episódio que exponho, passo a contar a ocorrência sem mais delongas, para que se estabeleça de uma vez por todas a verdade histórica, que, em minha opinião, deve sempre ser revelada.” – Um acontecimento real, de Sílvio Eduardo Paro
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